14.1.12

Ansiedade ajuda ou atrapalha na corrida?


Não conseguir dormir na véspera de uma prova importante não chega a ser um drama, como a revista já mostrou. Mas essa tensão pode trazer outros problemas, enquanto para alguns corredores ela é até estimulante.
Chegou a hora, você treinou, cumpriu a planilha, observou atentamente a hidratação e alimentação, inventou uma indisposição para não ir àquele jantar de sábado à noite (quem entenderia que precisa dormir cedo para fazer uma corrida domingo pela manhã?). Faz a última averiguação: chip, relógio, tênis, roupa, boné, número do peito, iPod e afins... alarme ligado. Hora de deitar tranquilamente. Mas a cabeça acelera, a ansiedade aparece roubando seu sono.
Ou quem sabe você seja um desses felizardos que mesmo na véspera de uma prova dorme tranqüilamente, mas muito provavelmente nos momentos que antecedem a largada o "frio na barriga" lhe deixa em alerta. E os corredores angustiados que chegam ao local da largada com horas de antecedência, consumindo a energia que será usada durante a competição?
Algaci Tulio, 61 anos, de Curitiba, que começou a correr depois de um infarto e ameaça de AVC, relata que a ansiedade de véspera atrapalha, mas com o tempo foi superando e agora relaxa conversando com os colegas antes da largada. Todas as pessoas sentem ansiedade. A vida agitada e acelerada desse tempo cobra seu preço, os objetivos e metas infindáveis têm sua parcela no mal-estar, compondo um quadro de angústia, ansiedade e stress. É uma constante na vida das pessoas, sempre existiu e, dependendo do grau ou da frequência, pode ou não atrapalhar a rotina e os esportes.
Insônia, coração acelerado, boca seca, tensão muscular, medo intenso, transpiração excessiva, sensação de vazio no estômago, disfunções intestinais e coração acelerado são algumas das reações físicas desagradáveis que se manifestam em momentos de perigo real ou imaginário. A ansiedade nos faz ficar em alerta prontos para encarar momentos de sofrimento, de risco físico ou mental, visando nossa preservação. É instintivo. Normal e passageira, mas pode ser considerada patológica, necessitando de um auxílio com terapia, acompanhamento medicinal (em casos extremos) e indicação de esporte: gerador de endorfina e aliviador das tensões.
Indivíduos demasiadamente ansiosos perdem boa parte da sua autoestima, deixando de fazer coisas porque se julgam incapazes de realizá-las. Consequentemente sentem medo de errar, chegando ao extremo de não tentar. Fernanda Souza, 44 anos, de São Paulo, acredita que a ansiedade atrapalha tudo, fazendo até com que o individuo desista. "Correr é um quilômetro de cada vez, se a cabeça não estiver legal, nada funciona."
É sabido que a falta de equilíbrio psicológico frente a situações de pressão, seja treino ou a corrida propriamente dita, aumentam as chances de lesões, baixas no sistema imunológico, assim como o aparecimento de sintomas psicossomáticos originados pelo stress e sentimentos negativos.
Mario Margon, 41 anos, corredor curitibano, sabe o poder da pressão psicológica na semana que antecede uma competição: "Tenho problemas com a ansiedade ligada à corrida na semana que antecede a prova. Meu psicológico trabalha contra mim, sempre que tenho uma prova e estou preparado para quebrar meu recorde na distância ou conseguir um pódio por categoria; começo a ter alguma dor estranha ou sintomas de gripe", conta o atleta. "Já estou até acostumado e aprendi a lidar com isso; sei que vou correr bem, mas a ansiedade acaba por atrapalhar o sono e fico muito acelerado."

SÓ O EXCESSO PREJUDICA. Na maioria dos momentos, a ansiedade está mais ligada aos aspectos negativos por gerar sintomas corporais localizados no intestino ou no peito, enjoos e desarranjo intestinal que comprometem o desempenho, dificultando a corrida, deixando o atleta ainda mais angustiado com sua performance. Para Adcley Souza 37 anos, a ansiedade é normal sempre diante de novas situações. "Em excesso atrapalha, pois gera insônia, entre outros sintomas físicos", entretanto ele acredita que bem dosada ajuda a encarar os desafios.

O aspecto positivo da ansiedade é o de nos colocar em estado de alerta, oxigenando e acelerando nosso organismo, enrijecendo nossos músculos, nos capacitando para movimentos mais rápidos, com atenção e foco definidos. Reações mais imediatas, precisas, características necessárias para quem vai enfrentar uma disputa, ou simplesmente atravessar uma rua.
O atleta precisa reconhecer os primeiros sinais, encontrar por si mesmo técnicas que o façam redirecionar essa ansiedade em prol de seus objetivos: finalizar a prova, diminuir seu tempo ou até alcançar um pódio. Muitos ficam tão ansiosos que acabam na largada dando tudo de si, e muitas vezes "quebram". Exageram na "pilha" inicial, não conseguindo manter um ritmo durante o percurso.
"Fico muito ansioso antes da largada de uma prova importante. Isso me atrapalha, mas ao mesmo tempo me faz ter foco, e largar com tudo. Normalmente, quanto mais ansioso fico, melhoro meu desempenho! Mas em duas corridas isso já me atrapalhou, e me fez largar forte demais (e sofrer no final)", conta André Choma, 34 anos, mais um de Curitiba.
Deve-se aprender a conviver com seus sintomas, neutralizando os efeitos negativos e beneficiando-se de sua potência, podendo assim reverter sua ação a favor de si mesmo. Para Ricardo Breno, 28 anos, a ansiedade é positiva, pois gera motivação. Acima de tudo o atleta precisa conhecer seus limites. Assim como ele, Marise Nunes, 56, igualmente curitibana, acrescenta que a ansiedade não pode levar o sujeito ao desespero e descontrole emocional: "Sendo geradora de adrenalina, nos torna capazes, melhorando o desempenho, para adquirirmos aquilo que nos propomos."
Existem varias opções que ajudam: relaxamento, ioga, controle respiratório, alimentação equilibrada, uma serie de combinações à disposição em livros e sites do gênero, porém cada indivíduo tem sua rotina e foco estabelecido. O que para um ajuda, para outro pode não ter efeito algum; a idéia não é eliminá-la, nem podemos, e sim estabilizá-la.
Quanto maior o volume e tipos de treino, competições realizadas e tempo despendido para as corridas, maior será a sensação de serenidade e autocontrole na véspera, largada ou durante uma corrida. A autoconfiança e autoconhecimento darão conta do recado. Concentre-se no presente. Respire fundo e tome consciência do seu corpo. A maturidade esportiva traz essa capacidade de administrar a ansiedade com bons resultados pessoais. Correr com emoção sabiamente controlada é muito bom! 

GRACIELA ALLGAIER