13.1.11

É melhor ser confiante ou modesto na corrida?


CONFIANÇA X DÚVIDA. O conceito de auto-eficácia - o quanto alguém acredita ser capaz de realizar determinada tarefa - é tradicionalmente aceito como tendo grande importância para a performance e desempenho esportivo. O primeiro passo é acreditar (impossível não é nada, querer é poder...); são inúmeras as frases de efeito que podem ser utilizadas para ilustrar este ponto. Diversas pesquisas mostram uma relação positiva entre altos níveis de auto-eficácia, ou um alto índice de confiança, na performance esportiva. Esportes coletivos geralmente ilustram bem este ponto, em situações em que após um lance decisivo, ou muito disputado, o time vencedor passa a obter grande vantagem na partida, enquanto o adversário parece perder-se em quadra.

No entanto, esta visão tem sido questionada por alguns especialistas, baseados no seguinte ponto: uma boa performance eleva os índices de auto-eficácia, e daí a boa relação entre os dois, porém esta elevada auto-eficácia apresenta uma relação muito mais fraca com a próxima performance do indivíduo. Segundo os defensores desta idéia, um pouco de "auto-dúvida" (me perdoem os psicólogos se a tradução não for a mais adequada) sobre a capacidade de realizar a tarefa funciona com um incentivo para adquirir a habilidade e o foco necessário para vencer os desafios numa próxima oportunidade. Novamente, esportes coletivos podem oferecer um ótimo exemplo, como no caso dos times que jogam "de salto alto", muitas vezes extra-confiantes em sua vitória, e acabam sendo surpreendidos pelos adversários.

Este conceito é fundamental para corredores, utilizando-se também a noção de retorno à média. A idéia de retorno à média parece ter sido desenvolvida por um pesquisador enquanto lecionava para instrutores de pilotos de caça. Ao dizer para sua classe que as pessoas funcionam melhor quando recebem um comentário positivo sobre sua performance, o pesquisador foi surpreendido pela reação de seus alunos, que discordavam de sua opinião. Segundo eles, sempre que um piloto realizava uma manobra espetacular e era elogiado, sua próxima manobra era ruim, e o oposto também era verdade: uma manobra ruim, devidamente criticada, era seguida de uma melhora significativa em desempenho, donde a conclusão que os pilotos funcionavam melhor com xingamentos do que com elogios. O conceito de retorno à média é justamente isso, o fato de que qualquer performance extrema (positiva ou negativa) será normalmente seguida por uma pior ou melhor, respectivamente, pois o resultado tende a voltar para o nível médio de desempenho do indivíduo, e isso independente do tipo de feedback recebido, ao contrário do que acreditavam os instrutores.

Voltando ao mundo dos corredores, estudos indicam que a performance ao longo de uma temporada competitiva varia entre 2,5% a 4,2% entre provas de 10 km a maratonas (a maior variação aparentemente ocorrendo em meias maratonas), com a grau de variação aumentando conforme o grau de perfomance diminui - corredores mais treinados são mais estáveis em seus tempos. O seja, um corredor com um tempo médio de meia maratona na casa de 1h30 pode ter um tempo próximo de 1h27 num dia bom, ou 1h33 num dia ruim. Agora digamos que o melhor tenha ocorrido, que tudo deu certo na prova e que a barreira de uma hora e meia foi quebrada. Imagine agora o tamanho da frustração se após uma meia em 1h28 o desempenho cair para 1h31 ou mesmo 1h33! Essa diferença de três minutos para mais ou para menos numa meia maratona equivale a 8,5 segundos por quilômetro, ou três segundos por volta, uma variação não maior que a usada na prescrição de treinos.

Claro, estamos falando de uma diferença um pouco grande, considerando um dia muito bom e um muito ruim, mas o fato é que todo o corredor está sujeito a passar por isso, e é neste ponto que a auto-confiança se torna tão importante. É fundamental que assim como o corredor não se deixar levar por um dia ruim, ele também não se deixe carregar pelas emoções em um dia muito bom. Quer dizer, existe sempre a chance que nosso melhor tempo tenha sido um resultado incomum, e não se deve esperar pulverizar aquela marca na próxima corrida. Um pouco mais de cautela evita grandes decepções assim que se passarem os primeiros quilômetros da prova.

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