5.9.10

Pense rápido

Sim, você precisa treinar suas pernas, mas é a cabeça que define o seu ritmo Por Matt Fitzgerald

Saber dosar o ritmo ao longo de um treino pesado ou uma prova é um objetivo comum a todos os corredores. Talvez você já tenha passado pela experiência de se empolgar demais nos primeiros quilômetros, acelerar em excesso e chegar ao fim cambaleando e respirando com dificuldade. Se sim, é bem provável que, na prova seguinte, você tenha se contido, chegando mais inteiro. Mas, então, aparece um novo dilema: você se torna especialista em correr moderadamente e termina as corridas se sentindo bem até demais — e fica a sensação de que poderia ter forçado um pouquinho mais...

Encontrar seu ritmo perfeito, tentando correr determinada distância no menor tempo possível sem ficar esgotado, é uma arte. Isso acontece porque quando corremos, mesmo se olhamos para o relógio, tomamos como base, em grande parte, nosso instinto: decidimos se devemos acelerar, reduzir ou manter o ritmo de acordo com o grau de desconforto que achamos que podemos suportar.

Até recentemente, a ciência do exercício dava pouca atenção a esse lado mental do ritmo. Se no meio de uma corrida você reduzisse a velocidade até parar, a maioria dos especialistas tentaria dar uma explicação dizendo que a temperatura do seu corpo se elevou demais ou que havia muito lactato (substância que provoca fadiga) circulando em seu sangue. Mas Ross Tucker, fisiologista do exercício na Universidade da Cidade do Cabo (África do Sul), e um grupo cada vez maior de cientistas do exercício acreditam que há um sistema mais complexo em ação. Os trabalhos desses cientistas mostram que o cérebro interpreta o que acontece nos órgãos, tecidos e células enquanto você corre e, então, usa essas informações para que a corrida seja iniciada no ritmo certo, com os devidos ajustes ao longo do percurso. A chave para melhorar o ritmo e se tornar um corredor mais forte é aprender como esses sensores internos atuam.


A ciência do ritmo

Foi um pesquisador alemão quem fez com que os cientistas do exercício estudassem a ideia de que o cérebro controla o ritmo. Em 1996, H.V. Ulmer formulou a teoria de que, quando se realiza uma tarefa, o cérebro se volta para o resultado final (a linha de chegada ou o momento em que o cronômetro da esteira chega aos 30 minutos) e trabalha de trás para a frente, a partir do término do evento, calculando quanto esforço você é capaz de fazer e ainda assim concluir o treino. Há vários anos, Ross Tucker e colaboradores, inclusive o renomado fisiologista do exercício sul-africano Timothy Noakes, começaram a realizar experiências com base na teoria de Ulmer, que chamaram de “regulação prevista”, ou seja: o cérebro prevê o período em que o atleta estará correndo e regula o ritmo de acordo com essa previsão. "O cérebro controla o desempenho do exercício para evitar que o organismo chegue a um ponto de falência ou a um nível de esforço que possa oferecer risco", diz Tucker.


O poder do pensamento

E como o cérebro conhece esse limite? “Ele recebe sinais do corpo e os interpreta durante o exercício”, afirma o pesquisador. Então, interpreta a intensidade do exercício e os vários sistemas do corpo (Você tem energia suficiente? Você está bem hidratado? Qual é a temperatura do corpo?) para determinar se o corredor conseguirá terminar a atividade física mantendo o mesmo ritmo. "Em seguida, o cérebro muda o grau de ativação muscular para diminuir o ritmo do atleta ou permitir que ele seja ainda mais rápido", explica Tucker.


Em um dos estudos feitos por ele, dois grupos de ciclistas fizeram testes de tempo em temperatura alta ou baixa. E, como era de esperar, os atletas que se exercitaram em temperatura mais alta foram mais lentos. Mas esses mesmos atletas diminuíram o ritmo, sem perceber, nos primeiros 5 minutos a partir do início do teste, muito antes de a temperatura corporal interna se elevar. "O fato de esses ciclistas terem diminuído o ritmo tão rapidamente indica que as decisões sobre o ritmo são tomadas pelo cérebro, muito antes de qualquer fator fisiológico obrigar o atleta a reduzir a velocidade", diz Craig Kain, psicólogo esportivo e professor no Departamento de Cinesiologia da California State University (Estados Unidos). "Então você não reduz a velocidade porque está quente, mas sim porque há uma previsão de aumento da temperatura."

Embora o processo de “regulação prevista” se destine a evitar que o atleta se machuque, às vezes o cérebro pode ser superprotetor e fazer com que o ritmo diminua antes que seja necessário. E como impedir que o cérebro pise no freio antes da hora? “Fizemos uma pesquisa e concluímos que a melhor maneira de o cérebro aprender é vivenciando experiências”, diz Carl Foster, professor de exercício e ciência esportiva na University of Wisconsin - La Crosse (Estados Unidos). "Quanto mais cansaço você sentir, mais o cérebro entrará em sintonia com seus limites. Simular uma experiência de corrida, exercitando-se em ritmo de competição pelo menos três a quatro vezes durante o treinamento, fará com que seu cérebro se familiarize com seus limites reais."

Craig Kain sugere mais uma estratégia: treino com split negativo. "Se você correr a segunda metade do percurso em ritmo mais rápido que o da primeira, você ficará treinado para vencer sua mente quando ela tentar reduzir o ritmo durante a segunda parte de uma prova", explica. Essas técnicas de treinamento ajudarão o corpo e a mente a se acostumarem com o esforço necessário para fazer qualquer treino ou competição no ritmo perfeito.