17.12.09

correr descalço


Do ponto de vista evolutivo, o ser humano não é um corredor de longa distância. Como estratégia de fuga e sobrevivência, sua estrutura corporal privilegia mais a capacidade de subir em árvores que propriamente correr, atividade que lhe é particularmente traumática para pés, joelhos e quadril. Nesse aspecto, ao reduzir a resistência do pé ao estresse causado pelo contato com o solo durante a corrida, o uso milenar de calçados pelo homem teria contribuído para agravar mais e mais a situação. Sabedores disso, não seria então a hora de os corredores darem meia-volta? De desamarrarem seus modernos tênis e voltarem a correr descalços ou o mais próximo disso possível? Alguns já começaram esse movimento.


Molas metálicas para maior impulsão, amortecedores de dupla ação e até componentes eletrônicos embutidos no solado. Por mais espetaculares que sejam os desenvolvimentos tecnológicos no setor, pesquisas indicam que os atuais tênis de corrida podem não estar ajudando muito a melhorar o desempenho dos atletas. Nem mesmo a prevenir lesões. Certos corredores chegam a afirmar serem melhores correndo descalços ou então usando tênis de solas tão finas que mais parecem meias. Mas médicos especializados no assunto discordam. Para eles, os conceitos consagrados pela medicina desportiva ao longo dos tempos continuam válidos.

Na outra ponta, em defesa de seu mercado, os fabricantes de tênis resolveram se coçar. Com o propósito de combinar os alegados benefícios de correr descalço com alguma camada que protegesse os pés, foram para as bancadas dos laboratórios e desenvolveram modelos com menos material. Esse movimento em direção ao mínimo pode vir a ter um impacto significativo não só no segmento dos tênis de corrida, mas no mercado de calçados esportivos como um todo. Entre corredores a torcida fica por conta de que o movimento resulte em tempos mais baixos, em menos e menos graves lesões, e - por que não?- em tênis mais baratos.

VANTAGEM EM CORRER DESCALÇO. "Para 95% ou mais da população, correr descalço fatalmente terminará em meu consultório", afirmou recentemente ao jornal The New York Times o Dr. Lewis Maharam, diretor médico dos Corredores de Rua de Nova York, grupo que organiza a maratona da cidade. Segundo ele, "como indivíduos biomecanicamente perfeitos são raros, a grande maioria das pessoas necessita de algum tipo de calçado, seja ele de suporte ou para correção".

Ortopedista, traumatologista e triatleta nas horas vagas (já completou dois Ironman, quatro maratonas e várias outras provas de resistência), Clauber Eduardo Tieppo, 44 anos, não concorda com essa tese. Para ele, que se formou em 1988 pela Faculdade de Medicina de Botucatu-Unesp, SP, e tem especialidade em cirurgia de joelho e trauma desportivo, é preciso levar em consideração a capacidade de adaptação que os pés descalços apresentam. Na defesa do seu ponto de vista, cita estudo realizado pelo Laboratório de Biomecânica da Universidade de São Paulo.

Embora preliminar, o estudo em questão - que foi feito em esteira e analisou sete voluntários do sexo masculino, todos habituados a correr calçados e sem histórico de lesão nos seis meses anteriores -, teve como objetivo investigar as diferenças entre a corrida com os pés calçados e descalços. Ao analisar os resultados, os pesquisadores observaram que impulsos de menor magnitude representariam uma quantidade menor de energia propagada de forma passiva para os ossos e articulações, evidenciando assim um melhor gerenciamento de carga na corrida descalça.

Embora na percepção geral dos corredores o uso do tênis possa estar associado fundamentalmente à necessidade de 1º) amortecer impactos e 2º) evitar ferimentos, Clauber lembra que o calçado faz mais. "Ajuda a distribuir a carga nos pés biomecanicamente ineficientes, como acontece nos pés cavos, com grande supinação e também nos pés planos, com pronação excessiva. É minha opinião pessoal, mas acredito que o supinador severo seja o atleta menos propenso a se adaptar à corrida descalço, isso porque precisa mais do amortecimento de impacto que os demais", diz ele.

Grama, areia, asfalto... Curta, média, longa... Tiro, trote, ritmo... Treinos e corridas há para todo gosto e finalidade. E correr na rua é bem diferente de fazê-lo nos ambientes controlados de laboratórios ou academias. Em meio a tão variado contexto, em quais situações correr descalço pode ser benéfico ao atleta? Clauber responde: "Atletas bem adaptados (condição fundamental) podem correr descalços em grama bem aparada, areia e asfalto em bom estado. No caso inverso, nenhum atleta deveria correr descalço quando a visualização da superfície está prejudicada (como grama alta e locais escuros), pisos em mau estado, com temperaturas baixas ou muito altas. Atletas com sobrepeso, com pés muito rígidos, com supinação excessiva e diabéticos também não devem correr descalços. Também não recomendo correr em concreto nem mesmo para atletas calçados. É muito duro, com força de reação ao impacto de até 6 vezes o peso do corpo."


FUTURO DUVIDOSO. Um número ainda pequeno, mas crescente, de corredores passou a acreditar na corrida ao natural - se não 100% descalço, quanto mais próximo disso melhor. Além do livro "Nascido para Correr", de Christopher McDougall, um best-seller recente, alguns métodos de treinamento (Chi Running e Pose) estão pondo lenha na fogueira. Para essa turma, prevalece o conceito de que o pé nu é perfeitamente capaz de correr longas distâncias, e que "enjaulá-lo" nos tênis modernos enfraquece músculos e ligamentos, bloqueando a recepção dos sinais sensoriais enviados pelo contato com o terreno.

O médico Clauber discorda novamente. Segundo ele, "o que enfraquece músculos e ligamentos é o desuso e não o uso do tênis. Obviamente que os estímulos proprioceptivos são maiores ao se correr descalço, mas isto não significa que estejam ausentes quando se usa tênis. A meu ver, a chave da contribuição para melhora das lesões no correr descalço é a correção da passada larga, quando o contato inicial do pé ocorre muito à frente do eixo do corpo, sinal de uma biomecânica pobre de corrida".

Clínico geral, especialista em acupuntura e medicina chinesa, e autor de livros como "Medicina Complementar - vantagens e questionamentos sobre as terapias não-convencionais", Alex Botsaris analisa a situação por outro viés. Para ele, "o estímulo gerado pela corrida descalça é excessivo e mais intenso em certas áreas que em outras. Do ponto de vista da reflexologia, não apenas é prejudicial como acaba produzindo mais desequilíbrio. Entretanto, como andar descalço é importante para a fisiologia dos ossos e músculos do pé e ajuda nas trocas de energia do organismo, o bom seria que, como recomenda a medicina chinesa, andássemos descalços uma parte do dia".

Muitos profissionais concordam que embora correr descalço possa trazer benefícios, aqueles que se sentirem tentados a fazê-lo - ou a experimentar algo próximo disso - precisam começar devagar, exatamente como fazem quando procuram alterar qualquer dos seus outros hábitos de corrida.

Em meio a toda essa controvérsia, correr descalço e caminhar de forma natural passaram a ser objeto de intensas pesquisas por praticamente todos os fabricantes do setor de calçados. As companhias simplesmente não desejam perder o bonde, caso o movimento deixe de ser um modismo passageiro. Direta ou não, uma consequência prática disso já pode ser vista no mercado: na busca pelo mínimo, muitos modelos estão sendo construídos com menos material.
A situação pode ser resumida numa difícil questão: embora ainda incipiente, o movimento dos corredores descalços existe, e os fabricantes de tênis precisam tomar posição. Se afirmarem que o que estão fazendo hoje é o certo, estarão dizendo, em outras palavras, que tudo que foi feito até ontem esteve errado. Embora a grande maioria dos corredores não possa sequer pensar em trotar descalça, muitos outros seguramente estarão prontos para dar meia-volta e conferir se, nos pés, menos pode realmente ser mais.



AS VITRINES PODEM MUDAR DE CARA


Correr com o pé nu - ou o mais próximo possível disso. Modismo ou não, o fato é que os fabricantes de tênis estão de olho no comportamento dos corredores.

A Nike lançou, em 2005, o "Free", um calçado que mais parecia uma meia grossa com um solado de borracha, exatamente para dar a sensação de que a pessoa estava correndo descalça, mas protegida de pequenos problemas no piso. A recomendação de uso era para depois de treinos (ou antes) para relaxar. Segundo informações, as vendas foram bem em vários países, mas no Brasil o modelo não vingou, talvez por uma questão de estratégia e marketing.

Conhecida pelos solados de borracha que fabrica, em 2006 a italiana Vibran projetou o "Five Fingers"(5 Dedos) - misto de sapatilha e meia de borracha, mais parecendo um pé-de-pato -, visando atender velejadores e praticantes de caiaque. Mas corredores acabaram gostando da opção e ajudaram nas boas vendas. Costumam ser usados não para correr, mas para antes e depois de treinos e competições.

Produzido pela empresa britânica Terra Plana, o modelo "Vivo" básico é um calçado minimalista ecológico, voltado para quem gosta de caminhar descalço. No entanto, até o fim do ano a empresa deve lançar uma versão do mesmo modelo para competição.

Por tudo isso, acostumados a sempre botar mais alguma coisa no tênis, alguns fabricantes dão como certo ter chegado o momento de pensar em fazer o caminho inverso.



NASCIDO PARA CORRER

"Born to Run" é o título em inglês do livro de Christopher McDougall (272 pags., editora Random House, US$ 25 - sem previsão de lançamento no Brasil). Como autor, seu ponto de partida foram os índios Tarahumara, do México, conhecidos pelo feito épico de correrem 100 milhas (aproximadamente 160 quilômetros) com os pés protegidos apenas por tiras de borracha. O livro passou a ser a bíblia dos corredores descalços.

Após sofrer dores crônicas nos pés e ter sido avisado por médicos do esporte que deveria abandonar as corridas, Christopher resolveu experimentar calçados de solas finas. Atualmente ele corre longas distâncias sem tênis - e sem dores.


FAMOSOS QUE UM DIA CORRERAM DESCALÇOS...

O etíope Abebe Bikila e a brasileira Jorilda Sabino são lembrados pelos bons resultados obtidos ao correrem descalços. Cada qual teve lá suas razões.

Primeiro atleta a ganhar duas maratonas olímpicas consecutivas, Bikila disse que correu descalço na maratona dos Jogos Olímpicos de 1960, em Roma, "para mostrar ao mundo que seu pobre país era campeão em determinação". Eminência na preparação esportiva da época, seu treinador, o sueco Onni Niskanen, não se opôs de imediato ao gosto de Bikila em correr sem calçado. Ao contrário, optou por estudar os tempos de seu atleta correndo com e sem eles. Comprovou que Bikila era de fato mais rápido descalço. Quatro anos depois, em Tóquio, Bikila correu calçado, bateu recorde e ganhou ouro.

Apelidada de "Cinderela Descalça", Jorilda Sabino foi 2ª colocada na São Silvestre de 1984, prova que na ocasião disputou palmo a palmo com Rosa Mota. Segundo consta, suas razões para correr descalça eram de ordem financeira.


...E UM SUPERCAMPEÃO QUE AINDA HOJE DISPENSA O TÊNIS

Sérgio Cordeiro é o tipo de atleta que pode ser resumido em uma palavra: vencedor. Uma de suas mais fabulosas conquistas foi vencer o Mundial de Deca Ironman, no México, em 2007, prova da qual pretende se tornar bicampeão este ano. E pensar que começou com o pé no chão, literalmente. Acompanhe a entrevista que ele nos deu.

Quando e por que razão você começou a correr descalço?
Iniciei nos esportes há 30 anos. Na época o "tênis de corrida" ainda não existia no Brasil. Pelo menos não para mim, uma pessoa muito pobre, sem condições de importar. Usava então os "Congas", que além de bolhas me causavam dores na panturrilha. Acabava tirando e corria descalço mesmo. Me sentia melhor e até corria mais.

De modo geral, você sempre compete e treina descalço ou só faz isso de vez em quando?
Na verdade só treino calçado. E muitas das minhas longas (110/120 km) faço com tênis baixo. Quanto a competir, depende muito da prova. No triatlo, quando termino o ciclismo muito travado, começo correndo descalço até que me sinta mais solto, e aí coloco o tênis. Inclusive, dependendo de como esteja, coloco um tênis com solado alto ou baixo.

Sua carreira é longa, e suas provas são duríssimas. Mesmo assim, apesar dos atuais 55 anos, em determinadas situações você continua preferindo correr descalço, chegando inclusive a tirar ou colocar o tênis durante as provas. Seu rendimento muda quando você corre descalço?
Sim, e como muda! Quando tenho que correr contra o tempo, inclusive buscar uma colocação melhor na prova, com certeza tem que ser descalço. Já deixei muito tênis pelo meio do caminho nas corridas de rua. O engraçado é que vinha uma tremenda galera atrás de mim para pegar o tênis que eu largava. Quantas brigas tive com meu treinador, o Lauter Nogueira, por causa desse tira e bota tênis...

Pedriscos, vidros, metais, óleo... Correr descalço implica em riscos de ferimentos graves. Já teve que abandonar alguma prova ou deixar de competir em função de acidentes dessa natureza?
Nos meus 30 anos de esporte, correr descalço nunca me causou qualquer problema, acidente, ou mesmo contusão. Pelo contrário. Me sinto muito melhor. Corro mais fácil, mais solto e até aprendi a conviver com minha dificuldade, já que para mim a condição financeira era um obstáculo.


Aconselharia alguém a correr descalço?
Com certeza, não. Acho que é uma situação só minha, que não veio de modismo ou de achar legal. Foi uma condição causada por dificuldade financeira. E se as pessoas podem iniciar de forma correta, que o façam, pois é mais saudável. Curto cada prova e procuro me superar, mas definitivamente não vivo a filosofia do gostar de sofrer, de sentir dor.


 fonte:
contra-relógio