2.11.09

Salve sua pele

Vem chegando o verão...Salve sua pele!

É verdade que a temperatura esteve acima da média durante o ano todo, mas chegou a hora de redobrar a atenção com a proteção solar a fim de se evitar problemas, que vão de envelhecimento precoce a câncer cutâneo.

"Você cuida do seu coração correndo, mas a pele é o seu maior órgão; tome cuidado", alertou a maratonista americana Deena Kastor, alguns meses atrás, época em que anunciou que estava com câncer de pele. Aos 34 anos, a dona do recorde americano em maratona revelou que foram identificados em seu corpo 25 pontos com carcinoma basocelular e melanoma, este último um dos mais graves tipos de câncer e, segundo os médicos, também o que mais cresce no mundo.

Ao falar da doença, a intenção da atleta foi chamar a atenção dos corredores para os cuidados com o sol durante os treinamentos. "Se você é corredor ou amante de esporte outdoor, use protetor solar, roupas adequadas e boné, e procure um dermatologista pelo menos uma vez por ano", aconselha Deena, que conseguiu superar o problema com tratamento especial (veja mais adiante nesta matéria).

Em um recente artigo, a dermatologista Ana Lúcia Recio, de São Paulo, relata que especialistas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul realizaram um estudo, durante os Jogos Pan-Americanos do Rio, para avaliar os hábitos e conhecimentos de atletas brasileiros a respeito dos riscos da exposição solar sem proteção. Uma das principais conclusões foi a de que 73% dos esportistas praticam sua atividade ao ar livre, na maior parte do tempo. E embora todos afirmassem ter consciência da necessidade de foto proteção adequada durante o treino e o lazer, as queimaduras nesses indivíduos ocorriam freqüentemente - o que significa que o filtro utilizado era inferior ao recomendado ou então que a aplicação não era feita de maneira correta.

Cuidados básicos. Para os pesquisadores, esse resultado também reflete os hábitos da população brasileira em geral. Por isso, não precisa ser um atleta de ponta para se preocupar. Nós, pobres mortais corredores, também temos que tomar muito cuidado. "O sol traz muitos benefícios, desde promover a síntese da vitamina D no organismo até melhorar o humor da pessoa. Mas também traz malefícios, que vão do envelhecimento precoce, queda da resistência imunológica a manchas e risco de câncer de pele", diz a dermatologista Ana Maria Pinheiro, professora da Universidade de Brasília, presente no 21º Congresso Mundial de Dermatologia, realizado em outubro, em Buenos Aires.

Para os corredores, a médica aconselha: "Em primeiro lugar, fuja do sol entre 10 da manhã e 4 da tarde, visto que a incidência de radiações ultravioletas é maior nesse período. Aplique uma dupla camada de filtro solar - ou seja, espalhe o produto, espere a pele absorver, e passe novamente -, com Fator de Proteção Solar (FPS) 30, vinte minutos antes de sair de casa. Reaplique a cada duas horas ou se transpirar muito. Não esqueça de nenhuma parte do corpo: rosto, orelhas, braços, mãos, pernas. Também use camiseta e boné como proteção física".

No Congresso muito foi falado sobre os danos causados pelo sol à pele e sobre a importância dos produtos apresentarem proteção não só contra raios ultravioleta B (UVB), mas também contra raios ultravioleta A (UVA). "Estamos trabalhando para que haja uma normatização e todos os filtros passem a ter proteção anti-UVA, radiação que, como se sabe agora, também predispõe a pele ao surgimento do câncer", diz a dermatologista Ana Maria.

Alguns laboratórios, atentos a isso, já disponibilizam produtos com essa dupla proteção. "Protetores em spray e resistentes ao suor, desenvolvidos especialmente para esportistas, começam a se tornar mais comuns nas prateleiras, além de roupas com tecidos leves e FPS", conta o dermatologista Luis Fernando Tovo, de São Paulo.

A displicência nos treinos. Pergunte a um amigo corredor se ele se preocupa com proteção solar e usa filtro inclusive durante os treinos. Difícil encontrar quem tenha tão constantemente esse comportamento. Um estudo desenvolvido por C.M. Rudolph, da Universidade de Graz, na Áustria, e publicado na revista Archives of Dermatology, avaliou 210 corredores de maratona quanto ao risco de câncer de pele. Nos treinos e nas corridas, 97% deles disseram usar roupas leves, calções e camisetas de manga curta ou sem manga. Dessa forma, deixam de proteger ombros, braços e pernas dos raios ultravioletas. E apenas 56% garantiram utilizar regularmente protetor solar durante os treinos. Só que, ao examiná-los, foi encontrado um número significativamente maior número de lesões (pintas, nódulos) pré-malignas do que em pessoas não corredoras de maratonas. E essas lesões podem se transformar em câncer de pele.

"A principal causa da doença é a exposição prolongada e repetida à radiação ultravioleta do sol", explica Luis Fernando Tovo, um dos organizadores do censo realizado pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), que teve como objetivo levantar as principais queixas dermatológicas da população, com o propósito de contribuir para o desenvolvimento da política de saúde pública do país.

Vale lembrar que essa exposição é um dos fatores, mas não o único. O câncer de pele é provocado também por fatores genéticos e ambientais, como a destruição da camada de ozônio. Para se ter idéia da encrenca, de acordo com o especialista, a cada 1% da diminuição da camada de ozônio, aumenta em 4% as chances da enfermidade.

Como reconhecer e tratar. O câncer de pele é um tumor formado por células da pele que sofreram uma transformação de multiplicaram-se de maneira desordenada e anormal dando origem a um novo tecido (neoplasia). Pode se manifestar por meio de manchas pruriginosas (que coçam), descamativas ou que sangram; sinais ou pintas que mudam de tamanho, forma ou cor; feridas que não cicatrizam em quatro semanas. É o mais comum entre os cânceres e pode ter as seguintes formas:

Carcinoma basocelular. Mais freqüente (70% a 80% dos casos) e com menor potencial de malignidade. Seu crescimento é lento e raramente se dissemina; está relacionado à exposição dos raios UVB; se manifesta em áreas expostas ao sol como face, braços, colo e mãos e, freqüentemente, é indolor; aparece através de nódulos e feridas que não cicatrizam ou lesões que sangram com facilidade, como o atrito com uma toalha de banho ao se secar, por exemplo.

Carcinoma espinocelular / epidermóide. Menos comum que o basocelular, acomete mais as áreas de mucosa aparente, como boca ou lábios, cicatrizes de queimaduras antigas ou áreas que sofreram irradiação (raio X). Tem crescimento mais rápido e as lesões maiores podem dar origem a metástases.

Melanoma maligno. Corresponde à transformação maligna dos melanócitos (células produtoras de pigmento) e é o câncer que mais cresce no mundo (nos últimos 10 anos a incidência aumentou 20%). Pode surgir na pele sadia ou a partir de sinais "escuros", em áreas não expostas ao sol, porém é mais freqüente nas áreas expostas.

Felizmente, quando submetido a uma intervenção precoce e adequada, o câncer de pele tem altos índices de cura. Se for benigno, o procedimento pode ser cirúrgico (remove-se parte ou o tumor inteiro para exame microscópico, a fim de se determinar seu tipo e conduzir o tratamento) ou através da criocirurgia (congelamento da lesão com um jato de nitrogênio líquido, em uma ou várias sessões).

Novo tratamento. Agora, a grande novidade é a terapia fotodinâmica, um método não invasivo, que não deixa cicatrizes e permite ao paciente retomar sua rotina em poucos dias. Consiste na aplicação tópica do creme cloridrato de aminolevulinato de metila, seguida da exposição da pele a uma fonte de luz especial chamada Akilite (desenvolvida pelo laboratório Galderma, especificamente para esse método), que emite uma onda vermelha ativando o produto. Desta forma, o medicamento chega às camadas mais profundas da pele, atingindo o tumor. Se a lesão for maligna, quanto antes for retirada, maior a chance de cura.

A maratonista Deena Kastor submeteu-se ao tratamento e removeu os pontos afetados pela doença, seguindo depois com seus treinos e provas. Mas o melhor, sempre, é investir em prevenção. O ideal é iniciar a conscientização da proteção solar na infância, já que cerca de 80% da radiação solar recebida durante a vida ocorre nos primeiros 20 anos. Os efeitos da radiação ultravioleta só se manifestam com o passar do tempo e as lesões começam a aparecer na maioria das vezes por volta dos 40 anos.

POR YARA ACHÔA