14.11.09

Planeje bem sua maratona

Planeje bem sua maratona, para que ela seja uma festa
POR MARCOS OLIVEIRA BOTTESI

Há muitas coisas na vida que o dinheiro não compra. Uma delas é o prazer de completar uma maratona. Num mundo onde é possível até mesmo pagar pelos serviços de guias super-especializados para se chegar ao cume do Everest tendo, claro, experiência em alpinismo e preparo físico e psicológico adequados à subida a mais de 8 mil metros de altitude, vale citar o tão popular slogan daquele cartão de crédito: tem coisas que o dinheiro não compra. Para todas as outras... bem, cada um paga como pode.

Não! Em hipótese alguma quero dizer que a tarefa de escalar o Everest é mais fácil do que completar os 42.195 m de uma maratona. Na verdade, tomando por base o número de pessoas que completam cada um destes desafios, a gente logo vê que o "buraco" de escalar o Everest é muito, muito mais embaixo, se me permitem o trocadilho ridículo. E muito mais caro também, como se descobre através de uma simples consulta a um site que vende tal serviço, cujo valor ultrapassa os 60 mil dólares.

Mas, dificuldades e custos à parte, há espaço para todos os tipos de espetáculo, principalmente para o de correr uma maratona. Muito espaço. Basta ver a enorme quantidade de maratonas que é disputada nos quatro cantos do mundo.

A idéia básica aqui é mostrar que para completar uma prova desse tamanho e dentro dos tempos-limites razoavelmente aceitos nas maratonas mais tradicionais - digamos 6 horas - de nada adianta pagar um treinador e achar que o restante se resumirá a dar umas poucas corridinhas ao redor do quarteirão de sua casa. O interessado vai ter que suar a camisa. E quando digo suar, é suar mesmo, muito, várias vezes, exaustivamente.

Correr os 42 é fácil... Costumo dizer que o dia da maratona na verdade é o dia da festa. Se você está lá, naquele bolo de gente, se aquecendo e aguardando o tiro de largada, com certeza deve ter feito a sua lição de casa e agora pretende tão somente coroar tudo o que penou nos meses que antecederam a prova. O duro não é correr os 42 km do dia da maratona, quando muitas vezes você é incentivado por centenas ou milhares de pessoas, quem sabe algumas até mesmo gritando seu nome a ponto de causar arrepios.
A maratona exige, sim, concentração para que você não perca o ritmo tantas vezes treinado e imaginado para suas passadas. Mas como negar que ouvir uma, duas, várias bandas tocando no percurso da corrida não é estimulante, relaxante e gratificante? No dia da prova você ainda ganha frutas, água e bebidas energéticas, sem que precise se preocupar em como vai fazer para obtê-las.

Para demonstrar que é dia de festa, com um pouco de sorte você será fotografado e poderá se ver todo formoso num desses sites de esportes. Sendo dia de festa, é natural que você receba um presentinho... no caso, uma camiseta com detalhes sobre o evento. E, glória plena, no dia da prova você será premiado com uma medalha. Simples ou toda cheia de frescuras, ela, a medalha, vai simbolizar seu esforço e sempre que você a vir guardada se lembrará com orgulho e satisfação de tudo o que fez para merecê-la.

Longos e mais longos. Falei da festa e duvido que alguns não corredores que me honraram lendo este texto até aqui não queiram participar disso tudo. Mas a verdade, meus amigos, é que nem tudo são flores. Há que se passar pelo dia-a-dia do treinamento, esse negócio que inventaram e que nos obriga a correr quilômetros e mais quilômetros durante semanas a fio apenas para poder ter o prazer de completar os 42 km. Aí é que entra (ou sai) o suor, muito suor. Haja disposição! Haja força de vontade para cumprir a carga de treinamento prevista!
E não espere ganhar nenhuma medalha por ter concluído, sozinho, mais um daqueles intermináveis longões de 30 km num fim de semana chuvoso qualquer, enquanto seus familiares desfrutam ainda da cama aconchegante. É justamente nesse árduo caminho feito de muitas corridas, suor, fartleks e intervalados, ladeiras, dores musculares, planilhas, vários quilômetros rodados, com sol ou com chuva, e muitas vezes realizadas após a desgastante jornada diária do trabalho, que algumas pessoas desistem da idéia de participar de uma maratona.

Cruzar a linha de chegada, mesmo que às vezes em condições um pouco debilitadas, é o resultado de alguns meses de trabalho árduo e um mínimo de planejamento e estratégia. É quando você vê, na prática, o que acontece com outros tantos projetos, muitos deles enormes, vultosos, que se transformam em realidade à custa desses mesmos fatores: planejamento, estratégia e esforço individual ou coletivo. Por isso, procurarei detalhar o que compõe este planejamento, quando se trata de fazer uma maratona.

Planejamento físico. Esse é sem dúvida o mais conhecido. É o planejamento dos dias em que você vai treinar, em qual ritmo, a duração do treinamento, as distâncias, os descansos. E inclui também o planejamento de exercícios que busquem fortalecer outros músculos do corpo visando principalmente prevenir lesões. Ou exercícios e atividades cuja principal função seja justamente ajudá-lo a relaxar.

Existem dezenas de fontes para achar planilhas de treinamento. Algumas podem ser montadas especialmente para você por profissionais de Educação Física. Não esqueço jamais uma charge sensacional mostrada nesta revista...o cara todo produzido para a corrida, boné, tênis último modelo, cronômetro, óculos de sol e por aí vai. O colega pergunta: e aí, treinou bastante? Ele responde: putz...sabia que tinha esquecido alguma coisa!


Planejamento nutricional. Trata da questão bastante séria e delicada de ingerir adequadamente alimentos e bebidas para se obter energia necessária durante os treinos e a prova. Carboidratos, gorduras, glicogênio, gasto energético...são palavras que vão pautar este planejamento. Nele devem constar basicamente os cardápios das refeições, de acordo com as características pessoais e também atrelados ao planejamento físico uma vez que cada fase do planejamento tem uma necessidade diferente de energia. O ideal é que tal planejamento seja preparado por um profissional especializado em nutrição.

Planejamento logístico. Responde pela preparação de tudo o que envolve materiais necessários e deslocamentos para cumprir adequadamente seus treinos e a prova. Onde você costuma correr? Na rua? Na esteira da academia? No parque de sua cidade? Na praia? Com certeza você pensou em como vai se hidratar em cada um destes locais, como vai repor carboidratos durante os treinos mais longos, que tipo de roupa vai usar porque, mesmo no frio, ao começar a correr, seu corpo vai gerar calor e não vai ser nada agradável ficar correndo com aquele agasalho que lhe parecia tão aconchegante momentos antes. Quem já correu em NY sabe o tanto de roupa que é deixada pelos corredores na largada em Staten Island - podemos dizer que é uma campanha do agasalho de curtíssima duração mas de enorme eficácia.

A maratona vai ser fora de sua cidade? Pois então você planejou o dia em que vai chegar, onde vai se hospedar, como vai se deslocar até o local da largada e com que antecedência. Desnecessário citar a importância do tênis, pois teses e mais teses de doutorado já foram escritas tratando apenas e tão somente dele. E não esqueça que alguns pequenos itens podem fazer a diferença... experimente ficar correndo com seus mamilos machucados pelo atrito com a camiseta suada. Pois então... vaselina ou protetores adesivos, além de protetor solar e labial. Óculos de sol, boné, MP3, uma meia já usada ou uma novinha e pronta a lhe causar bolhas. Será que você já tinha se dado conta de quantas variáveis e detalhes essa parte do planejamento engloba? Logo, não os menospreze jamais!

Planejamento médico. Responde pelas ações necessárias para que você mantenha seus exames médicos em dia, ações em caso de eventuais interrupções no treinamento e pausas para recuperação de lesões, resfriados e outras doenças. Para correr uma maratona com o mínimo de risco possível à sua tão valiosa saúde, você deve estar em dia com suas mensalid...digo, com seus check-ups. O médico deverá solicitar e avaliar seus exames, desde um simples exame ergométrico até uma cintilografia, se ele assim julgar necessário.
Logo, planeje adequadamente um tempo para a consulta médica, realização e avaliação dos exames. Planeje também o tempo para se recuperar se você está lesionado. Quanto mais longo o período de treinamento, maior a chance de pegar uma gripe durante esse período, o que pode afastá-lo por alguns dias das corridas. Afastamentos por longos períodos implicam alterações nos treinamentos. Logo, há uma ligação direta entre o planejamento médico e o físico.

Planejamento psicológico. Cuide da sua mente, poderoso aliado (ou inimigo) para este desafio a que você se propôs. Esteja preparado para a parte final da corrida quando tudo o que você deseja é enxergar o pórtico de chegada ou até mesmo para um eventual insucesso na conclusão da prova. Não sei dizer se são muitos os que desistem nem exatamente as razões, mas que existem, existem. Numa maratona lembro-me até de um ônibus que vinha recolhendo os desistentes e que era chamado carinhosamente de "prego".

Você já ouviu a frase "shit happens" ou conhece o tal do Murphy e suas leis, não é mesmo? Então prepare-se para, eventualmente, suportar um pouco de câibras, para correr com chuva, com vento ou com sol forte, para ver que o seu recorde pessoal não será batido desta vez, apesar de todo o seu esforço. Mas acima de tudo, prepare-se para a dureza da rotina dos treinos. Nem sempre você vai estar no clima e disposto na hora de começar um treino programado meses antes. Aqui entra a força psicológica e mentalizar com freqüência seu objetivo traz ótimos resultados. Correr em grupos com certeza também ajuda bastante, pois existe um incentivo mútuo entre os colegas.

Quem sabe a Comrades um dia. Vimos aqui cinco áreas de planejamento. Algumas delas os corredores realizam sem se dar conta, principalmente porque várias atividades de diferentes áreas de planejamento são feitas simultaneamente. Você treina enquanto acerta sua viagem. Você monta seu calendário de treinamento, enquanto mentaliza e sonha com a conclusão da prova.

Procure planejar tudo, pois as chances de sucesso serão maiores e a maior beneficiada será a sua saúde. Quem sabe um dia você estará fazendo o mesmo que alguns "loucos" já realizaram, se não escalar o Everest, pelo menos concluindo com sucesso os 87 km ladeira acima da Comrades, na África do Sul.